 |
Não dexisto!
Não dexisto!
(Porque não dexistir é jamais deixar de existir, é sentir-se até que...)
As mesmas sensações que descrevem a felicidade de estar sóbria num mundo bêbado acorrentam minha mente diante da infelicidade daqueles que não sabem onde estão e nem como vieram. Meu corpo todo treme de angústia, de perplexidade quando caminho pelas ruas e vejo o cheiro de gente que nada espera. Cansados de tanta luta e tanto sofrimento, acostumados com poeira na cara suja de desesperança, acompanham o ritmo mórbido da vida que se arrasta pela São Paulo destruída. Os pés imundos sobre o solo que não os acolhe não sabem para onde vão e qual a razão de estarem aqui, nessa linha sem destino, nessa palavra sem contentamento, nessa lágrima que reprimo, nessa saudade que não sinto, nesse relato que não escrevo, nesse mundo ao qual não pertenço simplesmente porque não sou o que vejo, mas também não sou os que não enxergam deixando-me ficar desacomodada nessa posição. Solitária, sempre rodeada de gente, solitária, caminho pela vida que não existe, forçando-me a fazer algo sem mesmo saber se o que faço faz sentido, faz diferença. Paro de repente. Escrevo tudo, tudo o que está correndo pelo meu corpo no momento seguinte ao que vivo e choro a cada letra, a cada espaço. Choro por não saber como é possível rir e esquecer-me de toda a lentidão nos olhos opacos das crianças maduras e descontentes. Acabo-me na desgraça do meu semelhante porque tenho de compartilhar o mínimo e sentir o máximo. Eles caminham sem saber que caminham, sem saber que não há um destino. A terra se move em longos círculos, a passos rasos. Movo-me junto a ela e continuo parada, estática, porém lúcida. Essa minha lucidez comprime meus sonhos e alimenta todas as desgraças que passam diante dos meus olhos nus. Meus olhos não conseguem vestir a capa de morfina que cobre o mundo todo e todo mundo, eles são tão naturais e sofrem... como sofrem os olhos opacos e os corações vazios. Corações em pedaços que se espalham pelo mundo, fazendo mais corações que se arrastam e sangram crueldade vingativa. É muita, a crueldade que se faz presente a todo momento... o momento todo. Crua, sangrando horrores e perturbações, a idade passa, cruel, séria, selvagem. Negro. Mulato. Pardo. Discriminado, insensível e completamente atordoado. Homens que se fazem máquinas de autonomia duvidável, passam por mim e me arrastam a lugares onde não há luz. São muitas lembranças e ódios guardados e irremediavelmente impregnados pelo cheiro de medo que se renova com o passar dos anos. Todos os anos... todos os dias, tudo e todos. São gente, são seres humanos. São feitos de descaso e ignorância. Conheço tudo e todos. Por dentro e por fora. Conheço-os pela voz, pelos passos, pelo jeito tolo de caminhar na rua, pela risada maliciosa, pelo sorriso dengoso. E meu corpo ainda treme de solidão.
Escrito por Toni às 14h58
[]
[envie esta mensagem]
"Finge que funciona"
Essa é do jornal 'Agora' de SP - 20/01/2006:

Escrito por Toni às 15h22
[]
[envie esta mensagem]
|
 |
 |